DMI - Departamento de Mulheres Indígenas da APOINME

No ano de 2007, a APOINME realiza a primeira Assembleia Leste/Nordeste de Mulheres indígenas, em Ribeirão das Neves-MG. Neste encontro apresentou-se o diagnóstico dos Estados Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Ceará, Bahia, Paraíba, Minas Gerias e Espírito Santo. Este diagnóstico foi feito com parceria com CCLF, nele constavam informações de todos estes estados referentes a questões de saúde, educação, movimento indígena, terra, entre outros. Nesta Assembleia, é escolhido o dia 11 de Outubro como Dia Regional da Mulher Indígena. Nesse mesmo encontro foi escolhido o nome de Ceiça Pitaguary para representar todas as mulheres indígenas da APOINME no Departamento de Mulheres Indígenas (DMI). Este DMI nasce com o objetivo de articular e reunir as mulheres indígenas na busca de garantir mais espaço dentro do movimento indígena. O Departamento está articulado com outros departamentos e organizações de mulheres indígenas, como o DMI da COIAB, o DMI da Articulação de Povos Indígenas da Região Sul, a OMIR, Conselho de Mulheres Indígenas Potiguara (COMIP), a Articulação de Mulhere Indígenas do Ceará (AMICE), Organização das mulheres indígenas Xukuru Kariri (OMIXUK) e Organização das Guerreiras Indígenas Kambiwa (OGIK). O surgimento de um departamento para tratar de gênero dentro da APOINME está relacionado com os seguintes aspectos: a trajetória de militância política de lideranças indígenas na política indígena estadual e ao trabalho de militância de mulheres indígenas no Nordeste; o interesse crescente, na esfera nacional e internacional, pela questão de “gênero” entre as mulheres indígenas.

No cenário indígena brasileiro, para falar sobre o trabalho das guerreiras Indígenas e sua organização é preciso primeiramente fazer menção a quatro grandes lideranças mulheres: Maninha Xukuru Kariri, Quitéria Binga, Zenilda Xukuru e Cacica Hilda Pankararu. Elas são o exemplo de que o movimento de mulheres indígenas não é novo, pois sempre existiram mulheres que conduziram seus povos sem ter a preocupação de que existisse um movimento específico. […] O que se tem hoje é fruto da caminhada e da luta dessas bravas guerreiras (Ceiça Pitaguary).

Os nomes das lideranças femininas citadas acima são presentes em vários relatos dos índios do Nordeste como símbolo de força e resistência. Nesse sentido, apresentaremos um pouco da atuação política dessas mulheres, buscando apresentar suas contribuições para o movimento indígena. Quitéria Binga: Maria Quitéria de Jesus, mais conhecida como Quitéria Binga, assume sua primeira liderança ao final da década de 1970. Ela deixou alguns legados para os povos indígenas, principalmente aos Pankararu, a etnia da qual fazia parte. Dois marcos se destacam na sua trajetória de luta. O primeiro é a conquista da primeira creche indígena localizada na área indígena, onde, atualmente, funciona a Escola Estadual Quitéria Binga. O segundo marco foi a conquista da casa de parto, onde ela atuou por muitos anos como parteira. Quitéria Binga, mesmo não sabendo ler e escrever teve grande participação em projetos das universidades do Nordeste, participando de encontros regionais e nacionais para debater questões indígenas relacionadas a educação, saúde e principalmente sobre as terras indígenas. Ela era conhecida nacional e internacionalmente e debatia questões fundiárias nacionais. Existem relatos indígenas de Quitéria Binga ser uma das principais personagens responsáveis por furar os bloqueios para defender os direitos indígenas nas constituintes, durante a década de 1980.

Entre o Pankararu é muito comum que se fale em dons e Quitéria era reconhecida por ter alguns deles, pelos quais se acredita ser responsável por torná-la uma grande liderança do povo Pankararu. O primeiro dom, colocado por Santos (s/d), era o de “pegar menino” referindo-se ao trabalho de realizar partos, chamava-se assim, porque ela não se considerava uma parteira pois sua técnica era advinda de outras gerações de sua família. Depois de um certo período de luta Quitéria ou Dona Quitéria como era conhecida entre os Pakararu, conseguiu com que a FUNASA junto a FUNAI e em parceria com a ONG Saúde Sem Limites (SSL) prestassem uma formação técnica sobre biomedicina para auxiliar as parteiras indígenas em suas comunidades, principalmente as que atuavam enquanto agentes de saúde. Outro dom de Dona Quitéria era o de cantar. Esse dom exigiu dela um pouco mais de esforço, mas a partir do momento em que aprendeu, os Encantados permitiramlhe desenvolver o dom. E por último e que lhe tornou conhecida fora de sua comunidade foi o dom de lutar e liderar, do qual exerceu importante papel na luta pela demarcação das Terras Indígena Pankararu e lutou pela educação, pois via na educação a possibilidade de perpassar os saberes tradicionais e a possibilidade de driblar as burocracias para conseguir suas terras. Quitéria foi esposa, mãe, avó e bisavó. Viveu durante 82 anos e faleceu devido a complicações da diabetes. Zenilda Xukuru: considerada matriarca do Povo Xukuru, em Pesqueira é uma das principais lideranças de seu povo tendo enfrentado bastante lutas ao lado de seu marido, Cacique Xicão que foi assassinado em um dos conflitos dos indígenas com os fazendeiros da região. Zenilda, após o falecimento de seu companheiro, lidou com o luto e com a criminalização, recebendo três mandados de prisão. Era acusada de ser a mandante do crime de seu marido em conjunto com mais dois índios que teriam interesses políticos dentro da aldeia. Dona Zenilda fala que sofreu essa acusação, devido aos fazendeiros perceberem que matar não seria o suficiente para conter a luta de seu povo. Passados dois anos da morte do Cacique Xicão, Zenilda relata ter entregado seu filho para ser o novo cacique dos Xukuru, pois o Pajé teria enxergado a luz nele e ela compreendeu que a Mãe Terra teria escolhido seu filho para esta função, então não teria como negar. Zenilda tornou-se exemplo de força para as mulheres indígenas de sua comunidade, e exemplo de fé nos Encantados e em Deus (SANTANA, 2012). Ela dizia:

“Deus me deu essa tarefa: a libertação do meu povo. Entreguei meu marido e meu filho pela causa porque quem nasceu pra morrer lutando não vai morrer parado”.

Zenilda é formadora de lideranças femininas em sua comunidade. Segundo Machado (2012) mesmo sem ser cacique Dona Zenilda, exerce um papel de liderança dentro da sua comunidade. Além de ser uma liderança importante na comunidade, Zenilda também é considerada uma guardiã das curas e dos mistérios da mata. Em uma das entrevistas feitas com ela sobre o desafio das mulheres indígenas dentro do movimento indígena ela relata o seguinte: Cacique Hilda: mais conhecida como Cacica Hilda, nasceu em Terra Indígena Entre Serras Pankararu, em Petrolândia, sertão de Pernambuco. Hoje tem 78 anos de idade. Entrou no movimento indígena após uma parte dos índios (33 lideranças, segundo a cacica Hilda) negociarem junto a FUNAI aproximadamente 8 100 hectares de terra do Povo Pankararu, justamente a terra em que morava. Ela lidera seu povo como cacica a mais de 40 anos. Ela foi responsável por liderar uma das mais importantes retomadas de seu povo contra fazendeiros e posseiros. Schillaci (2012) relata que a Cacica ficou bastante conhecida por isso. Por sofrer ameaças em decorrência da sua luta em defesa dos povos indígenas, em destaque pela Terra Indígena, a cacica fazia parte do Programa Estadual de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos de Pernambuco (PEPDDH). Mesmo com todas as criminalizações a cacica tem como base para renovação de suas forças a espiritualidade e a luta do seu povo. Maninha Xukuru- Kariri : Etelvina Santana da Silva, mais tarde conhecida como Maninha Xukuru Kariri nasceu em Palmeira dos Índios, no interior de Alagoas. Maninha é de uma família de guerreiros. A fama de família guerreira deve-se ao fato de seu avô, o cacique Alfredo Celestino, junto a outras lideranças percorrerem vários quilômetros para cobrar as terras que foram roubadas por latifundiários. Na sua juventude tentou viver fora de sua comunidade para se formar em medicina, objetivando ter uma vida mais confortável. Em vídeo autobiográfico, Maninha - Xukuru relata que mal conseguia pagar o cursinho pré-vestibular e essa foi uma das razões de ter desistido dessa caminhada fora da sua aldeia. Maninha conta que foi longe de seu povo que se deu conta da sua condição de indígena e percebeu que o seu lugar era na luta com seu povo.

Segundo Kambiwá (2012), ela foi a primeira mulher dirigente da APOINME, fez parte do grupo de fundação da APOINME, permanecendo na função durante 16 anos. Durante esse período ela teve que se impor para fazer valer suas ideias, pois passou por preconceitos ocasionados pelo fato de ser a única mulher na coordenação. Esteve à frente na luta pela terra de seu povo e organizou vários processos de retomada por todo o Nordeste e, de acordo com o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Maninha Xukuru trouxe a pauta da mulher para o movimento indígena. A liderança foi indicada em 2000 por sua trajetória e defesa de justiça e paz, ao projeto “100 mulheres para o prêmio Nobel da paz”. Este projeto tinha como objetivo homenagear mil mulheres que através de suas experiências contribuíram com estudos dos conflitos e na criação de políticas pela paz. Maninha faleceu em 2006 justamente na data em que as terras conquistadas em sua liderança completavam vinte anos e lá foi enterrada. O cacique dos Xukuru-Kariri, seu tio, relembrou os feitos de Maninha Xukuru como exemplo para a resistência dos Povos Indígenas. O Nordeste Indígena é marcado por lideranças femininas que exerceram participações essenciais para organização e conquistas do movimento de luta em defesa dos direitos coletivos. São trajetórias de vida que passam de geração a geração e servem de inspiração para resistir aos ataques a seus direitos e de força para organizar o papel das mulheres na luta.

Os caminhos trilhados pelas mulheres indígenas na constituição de organizações femininas. 

Priscila Greyce do Amaral Gomes (UECE/Ceará)

Jouberth Max Maranhão Piorsky Aires (UECE/Ceará)

Artigo na Integra...

Diagramação e Designer do Site @Alexandre Pankararu e @Graci Guarani